ENTREVISTA - Patrick Bürgi
IQ INFORMA – O que se entende por Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL)?
PATRICK BÜRGI - Como o nome já indica, o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo é um mecanismo de incentivo econômico a tecnologias e processos mais limpos e eficientes. Além de reduzir gases efeito estufa, contribuindo assim ao bem-estar do planeta, o MDL ajuda a financiar projetos que, em longo prazo, resultarão em benefícios econômicos em vários setores. Portanto, o MDL representa uma grande oportunidade ao empresariado brasileiro. É importante divulgar informação sobre o MDL para que as empresas no Brasil tenham acesso a estas oportunidades.
IQ - Qual será o enfoque da palestra?
PB – A palestra vai tratar, exatamente, sobre o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo e mostrar como empresas e entidades no Brasil podem utilizá-lo para financiar projetos de redução de gases efeito estufa, tais como energias alternativas, biocombustíveis, eficiência energética, tratamento de água, disposição de resíduos, etc. Depois de uma breve introdução ao protocolo de Kyoto e aos mercados internacionais de créditos de carbono, a palestra vai enfocar o funcionamento do MDL, desde a identificação de um potencial projeto, passando por todos os passos necessários até conseguir registrar o projeto nas Nações Unidas e gerar créditos de carbono. A palestra também tem como objetivo demonstrar alguns modelos de venda e compra de certificados e como isso implica no financiamento de projetos.
IQ – Como o Brasil se posiciona hoje com relação a este assunto?
PB - O Brasil, além de ter tido um papel muito importante na criação do MDL durante as negociações do protocolo de Kyoto, está entre os países com o maior número de projetos registrados. De 563 projetos registrados hoje nas Nações Unidas, 94 (16.7%) estão no Brasil. Apenas a Índia tem um maior número de projetos registrados (186 - 33.04%). Em termos de volume de redução de gases efeito estufa, o Brasil retêm 13.15% do mercado, apenas atrás da Índia (13.89%) e da China que lidera o mercado com 41.23%.
IQ - Quais são as novidades na área?
PB – Percebe-se uma participação mais ativa do setor financeiro que, cada vez mais, está provendo mais capital a condições cada vez mais atrativas a projetos MDL. Em nível mundial, existem apenas poucos projetos com um potencial de redução muito grande (redução acima de 300'000 t CO2-equivalentes ao ano). Se nota uma transição a projetos cada vez menores, o que facilita uma participação mais ativa da pequena e média indústria no mercado.
IQ - Quais as perspectivas de futuro?
PB - Apesar de algumas incógnitas em nível de decisões políticas, como a prorrogação do protocolo de Kyoto depois de 2012 ou a adesão dos Estados Unidos aos mercados existentes de créditos de carbono, as perspectivas são bastante encorajadoras. A nível global, a consciência em relação ao aquecimento global tem crescido muito, o que abre caminho a decisões políticas respondendo a questão. A União Européia já comunicou o compromisso de cortar suas emissões de gases efeito estufa em 20% até 2020. Algumas semanas atrás, a Inglaterra foi ainda mais longe e anunciou que quer implementar uma nova lei para uma redução de 60% até 2050. Esses sinais políticos são vitais para que os mercados e mecanismos implementados com o protocolo de Kyoto continuem crescendo e se desenvolvendo. O MDL se consagrou nos últimos anos como um mecanismo inovador, que combina a lógica de mercados financeiros com um problema ambiental. Na minha opinião, o MDL veio para ficar e as perspectivas nos próximos anos são muito boas.
Patrick Bürgi é engenheiro mecânico e co-fundador da Fundação Myclimate, entidade suíça sem fins lucrativos, que visa combater o aquecimento global financiando projetos de energia alternativa e eficiência energética em países em desenvolvimento.
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